quinta-feira, 27 de maio de 2010

Veronika. Parte V

 E agora a sentia, sentia uma falta imensa de cada particula de seus antigos dias. E nada poderia fazer, afinal, suicidou-se. E quem faz isso, não merece viver. Parece até engraçado, mas dizem que uma pessoa deve ser amada quando menos merece receber amor, e talvez fosse assim, ali, agora, ela entendia isso, e chorou.
 Chorou como uma criança pequena, e era isso que era. Uma criança, nunca havia vivido, talvez nem existisse, talvez fosse somente uma ilusão. Uma ilusão na mente de alguém que sonha acordado. Alguém que olha as árvores passando rapidamente através da janela embaçada do ônibus, e imagina então, Veronika.
Então era isso, tão logo entendeu. Perdida em suas memórias inventadas, esqueceu. Quis então que aquele alguém parasse de imaginá-la, cansou-se de existir, olhou ao redor e encontrou toda aquela cor bonita, cor esta que sempre imaginou em seus sonhos mais bonitos, pacificos. E quis a resposta para sua maior dor. “Quem sou?”
 Porque o mundo a despejara assim, não sabia... e jamais saberia, já que as respostas para suas perguntas só deveriam ser dadas pela pessoa que um dia, ousara criar, em seu infinito particular, uma mulher branca, de olhos que mudavam de cor, e era isso que ela era. Nada mais, nada menos.
 Uma mulher branca, da cor das paredes que hoje a envolviam, encolhida no canto do quarto sozinha, chorando como uma criança que nunca havia chorado. Seus sorriso distintos já não existiam e o brilho dos olhos coloridos se apagou.
 Não soube porque, nunca entendeu. Em um momento qualquer, talvez o alguém que sonhara com ela, desenhara seus lábios e seus cabelos despertou, cansou-se de viver num mundo ilusório e quis viver, deixando-a de lado, esquecida entre as lembranças do passado. E então, assim, Veronika, sem escolher, deixou de existir.
 E hoje, depois de tanto tempo vivendo na ilusão de meus pensamentos confusos, resolvi despertar, e ao mesmo tempo me culpei... por destruir toda uma vida de sonhos e desilusão. Destruir tudo o que eu criei, deixar pra trás. Me culpei mesmo, com exatidão. Soube o que estava fazendo, sempre soube, e não polpei dor ou sentimento, machuquei com ferro quente a alma de quem me fez pensar, sorrir... com seus sorrisos distintos e olhos coloridos.

Fim

26 comentários:

  1. ela provou que quando somos poeticamente humanos, caimos na própria desgraça aos olhos dos outros. a poesia dos outros é tão bela quanto o carro do vizinho, mesmo que tenhamos uma ferrari na garagem. a mesma coisa é com a gente. nosso poema, versos e prosa são sujos por nossa própria ignorância

    belíssimo! fechou muito bem!

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  2. Tantas lágrimas derrubadas em cima de um mundo oco, como se os pesadelos pudessem fazê-la esquecer dos sonhos reais!!!


    Lindo, triste... demais Dani!!!

    beijos

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  3. lindo seu blog, suas fotos...bjs

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  4. Estoou com saudades de voce, *--*!


    amo voce (L

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  5. Admito que quis consolar Veronika, quis trazê-la pelas mãos até a realidade, e dizê-la para não chorar. Ela existe se alguém acreditou nela.
    E eu acreditei. E quem leu deve ter acreditado.
    Tudo porque você acreditou.

    Lindo, Dani, meus parabéns.

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  6. Dou um [2] nas palavras da Larissa a cima. Acreditei que pudesse existir uma pessoa assim; eu queria ter sido assim. Mas por um breve momento, eu acordei e percebi que, eu não seria a mesma, eu não teria vida, ninguém jamais me conheceria. E se existe algo nesse mundo que me aflige, não tanto como a morte, é a frieza das pessoas. E eu jamais seria assim. Existe calor dentro de mim e isso me faz viver :)
    Não tenho palavras para elogiar-te. Precisei buscá-las à força. rs Belíssimo, Dani.

    Um beijo.

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  7. "As vezes a dor se torna alivio"
    (Você ao comentar minha postagem, lembra?).

    A postagem:

    "A lâmina nua,
    Um corte,
    Uma dor lancinante.

    Luz fria da lua,
    Reflete o sentimento,
    Morto.

    Um som sem voz...

    Sangue,
    Cessação definitiva da vida,
    A morte."

    Sua Veronika esse post.

    Um texto de uma leveza de ser e estar.
    Fina camada tênue de dor, solidão.
    Ambíguo.
    Para refletir.
    Beijos querida.

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  8. Se pudesse diria para ela não chorar, porque tudo o que se sente existe! ameei

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  9. A morte não é o fim, é apenas o começo, um começo estranho, mas ainda sim é seguir em frente, sem dor, sem desespero, é a verdade.

    abraços,

    Charlie B.

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  10. Caramba...muito bom isso....é realmente o fim?

    Essa culpa é terrível...persegue e fica na cabeça como incessantes pingos de água na pia...mas tente transformá-la em aceitação de si! É bom e não muito complicado...

    Muito bom!

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  11. Muito bom os seus textos, simplesmente amo!!!
    Tem um selo para vc lá no meu blog. Indiquei porque amo muito aqui!!
    Bjks!!

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  12. Não se pode deixar pra viver depois da morte, porque então será tarde demais. É preciso viver e viver agora! Muito lindo o texto todo... Beijos.

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  13. Sim, acho que todo mundo um dia também quer deixar de existir...
    Mas, hoje não.
    Ainda há muito o que fazer.
    Parabéns, moça!
    Sempre me emociono aqui.
    ;***

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  14. MAIS QUE PERFEITO! NOSSA, SEM PALAVRAS *-*
    Conto incrível.

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  15. amei amiga tdas as partes,li tdas agora mesmo.
    triste,profundo.. como se fosse uma trovoada de maleficidade.

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  16. Adoreeei! Sentimentos lindos e tristes! *.*
    Beeijos :*

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  17. É assim. A gente tem esse poder de destruir e reconstruir nossa vida mil vezes e quantas vezes for necessária ou por nossa própria loucura e displicência.

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  18. quase senti as dores de veronika, muito lindo.

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  19. A imagem em preto e branco da uma vida não vivida, cheia de cores e sons embaçados pelo olhar distorcido do Mundo e seu lado vil nos leva a ver no espelho o reflexo da morte.

    Mas tal reflexo não pode e não deve ocorrer com constância. Precisamos notar as atitudes, os pequenos gestos de bondade e carinho, o abraço aconchegante e confortável que nos surpreende. Precisamos querer isso e não criar um abismo entre nós e tais toques de acalento.

    À Veronika: onde quer que esteja, aceite meu abraço. E se não aceitar, ainda sim insistirei... onde quer que esteja, viva.

    Abraço, Roberto.

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