quarta-feira, 6 de julho de 2016

Catarina

Um dia desses avistei uma moça com um olhar tão sofrido que chegou me doer. Além de sofrimento, havia ali um vazio, talvez uma saudade...
Seu andar era lento, como se não quisesse chegar ao seu destino...
Sua postura era frágil, encolhida, como alguém que se protege... Sabe-se lá de quê. De quem. Talvez de si mesma, quantas vezes eu mesmo não o fiz! Quantas vezes escondi a dor que me doía, quantas vezes fingi não ouvir meus pensamentos... A gente tenta se enganar.
Ao vê-la ali, com seu olhar doído, eu sabia que ela fingia. Que tentava enganar... A si e aos outros. Insistindo que as dores hão de passar naturalmente, que as feridas cicatrizarão sem o cuidado necessário... E talvez tenha sido isso o que faltou. Cuidar de si, de suas feridas. Pensar em si. Valorizar-se.
Em meio às minhas especulações silenciosas, seu olhar sofrido me fitou e sua intensidade me atingiu como um golpe certeiro. Foi como sentir sua dor. Foi como ter tido lida a minha alma. Então aquele instante acabou, seguimos nossos caminhos, sem saber onde íamos ou onde queríamos chegar.

domingo, 26 de junho de 2016

Metamorfosear II

Percebo-me mudando. A cada instante. A cada nascer do sol.
Percebo-me diferente... Do que fui, do que era, do que sou.
À medida que percebo-me, modifico-me, e o que sou torna-se rapidamente passado, dando origem a um novo ser... E assim vou tornando-me quem sou, a cada dia... E mesmo mudando, por nenhum instante deixo de ser eu.
Mudam os gostos, as cores, as músicas. Mudam os hábitos, as rotinas.
O cansaço muda, assim como a forma de descansar.
Vejo minhas mudanças como libertações: do que eu fui, do que eu era.
Acredito que sempre mudamos para melhor, então por que gostaríamos de permanecer igual?
Por que não ouvir novas músicas?
Por que não vestir novas cores?
Por que não pintar nossos lábios, nossos lábios, nossas peles?
Por que não abandonamos aquilo que nos faz pesar para sermos leves?
Por que não deixamos pra trás tudo o que incomoda, dói?
Há de se ter coragem para ceder ao que fomos, para nos tornar quem somos.
Há de se ter muita coragem... E apoio.

Há coisas que, apesar do tempo e das dores, permanecem.
Os livros, os amigos, algumas saudades.
Como é bom ter saudades bonitas pra guardar, lembranças doces...
Como é triste saber que algumas pessoas não tiveram nem isso e, pior, só receberam mudas de tristezas pra cultivar.
Como é bonito quando, mesmo para quem é triste, surge uma esperança, e uma luz para guiar.
Essa luz, poucos sabem, existe dentro de cada um, e só espera oportunidade para brilhar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crescer dói

Crescer dói.
Dói porque não temos mais as pessoas que amamos ao nosso lado, cada um segue sua própria vida, seu próprio caminho... a distância surge e transforma em simples lembrança o que antes era cotidiano.
Dói porque temos que assumir responsabilidades, mesmo que não queiramos, e temos que trabalhar, estudar, ser alguém. Atingir objetivos, conseguir aquela vaga tão almejada que no final das contas nem vai nos fazer feliz ou minimamente plenos.
Dói porque a vida adulta não é aquela maravilha que havíamos pensado, apesar da liberdade conquistada de não ter mais que pedir permissão aos pais para qualquer coisa. Mas daí temos chefes e supervisores. Temos horário pra cumprir, pra chegar, pra sair. Temos relatórios pra entregar, metas a atingir. Temos uma agenda cheia de compromissos importantes, uma lista enorme de contas a pagar, e então viramos escravos desse estilo de vida, e não somos livres, como pensávamos.
Aos finais de semana e horários vagos dói ser crescido porque nem sempre temos disposição para aproveitar o momento, porque às vezes não conseguimos sequer tirar da cabeça os pensamentos relacionados a tudo aquilo que nos consome.
Dói porque quando chegamos em casa temos um milhão de coisas pra fazer, e dói porque dificilmente fazemos algo exclusivamente para nós mesmos.
Dói porque nos deixamos de lado, porque abdicamos daquilo que nos fazia sentir bem, do que fazíamos por prazer, como ficar com os amigos ou descansar.
Eu não sou uma pessoa que tem uma visão negativa sobre a vida, muito pelo contrário, me considero realmente positiva, mas, às vezes, quando a gente tem lembranças de alguns anos atrás, com uma realidade tão diferente do que temos agora, a gente não pode deixar de admitir que crescer dói bastante, e isso não significa que a vida não seja boa ou que não valha a pena viver: vale!
Bom mesmo é, apesar de todas as dores, encontrar forças para continuar tentando, abraçar uma causa, sorrir para um desconhecido. Porque, mesmo doendo, diariamente nos deparamos com motivos para seguir em frente... ou não estaríamos aqui.


"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino." (Fernando Sabino)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Metamorfosear

Vida longa àqueles que se permitem metamorfosear!
Há de se ter muita coragem para permitir-se modificar aquilo que sempre foi, que estava cristalizado, que era seguro... Há de se ter muita coragem para olhar para dentro de si e enfrentar o que é novo e compreender que se pode ser assim também, que não há necessidade de viver para sempre com a mesma fórmula, com a mesma cor de roupa, ouvindo sempre as mesmas músicas, fazendo sempre as mesmas coisas... Há de se permitir modificar! E quanta coragem há neste ato! Quanta coragem para anunciar aos ventos que, de repente, nos deparamos com o fato de que aquilo não nos serve mais! Passou. E permitimos que passasse para tornarmo-nos algo melhor do que já fomos.
Porque quando mudamos, não deixamos de ser o que fomos outrora, não deixamos de ser quem somos... Há quem o tema desesperadamente: se mudar, dirão que sou influenciável, que não tenho personalidade própria. Eu acho muito digno quem se permite transcender e ir além. Porque, se for o caso, somos influenciáveis mesmo, não vivemos numa bolha, não vivemos sozinhos, e a mudança é a lei da vida!
Precisamos desconstruir! Desaprender! Desapegar! Precisamos deixar pra trás o que já cristalizou e abrir espaço para o que é novo... Encontrar novas formas de arte que nos emocionem! Novos lugares para conhecer! Novos hábitos para renovarmo-nos!
Deixemos pra trás o que passou... E saudemos o novo, em tudo o que ele pode ser!